quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Da Justiça


Uma reflexão sobre o tema da Justiça não pode, como é evidente, focar-se somente no aspecto da aplicação (e criação) do Direito por parte dos tribunais. A actividade jurisdicional – com competência constitucional para administrar a justiça em nome do povo – funciona, claro está, como garantia última na defesa dos direitos e liberdades dos cidadãos, cabendo-lhe ainda reprimir a violação da legalidade, e bem como dirimir os conflitos de interesses públicos ou privados. No entanto, sendo a actividade jurisdicional um aspecto vital na prossecução da Justiça, tal fim não se esgota na actividade dos tribunais.


Na verdade, a questão da Justiça tem de ser pensada, antes de mais, quanto ao próprio sistema político e de governo (a chamada Justiça Institucional) que um Estado deve escolher para si, para de seguida reflectir-se sobre a Justiça das Leis legisladas pelo poder político desse Estado. É evidente que, quanto a estes aspectos, podemos perguntar genericamente se é mais justo um regime político republicano ou um regime político monárquico. Ou então se um regime político republicano semi-presidencialista é mais justo do que um regime republicano com um sistema de governo parlamentarista. Por outro lado, e já relativamente ao Direito legislado, podemos discutir se um determinado sistema fiscal é mais justo do que outro, ou se é justo tributar uma doação de um imóvel de pais para os filhos ou não. Todas estas questões são importantes e devem ser constantemente colocadas e discutidas pelos cidadãos.


Porém, e independentemente destas questões, existe outra que neste momento é, no meu ponto de vista, ainda mais indispensável numa reflexão sobre a Justiça, e que tem que ver com a incerteza, a multiplicação massiva, a irracionalidade e a ininteligibilidade das Leis legisladas nos últimos anos pelo nosso poder político. Este estado de coisas que actualmente verifico, e com tendência para piorar, é, na minha modesta opinião, um dos principais contributos para a criação de uma sociedade onde a injustiça pode proliferar (e aliás, em alguns sectores, infelizmente já prolifera).


(cont.)

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Fiat justitia, pereat mundus


Afastada a justiça, que são, na verdade, os reinos senão quadrilhas de malfeitores? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões, senão pequenos reinos?


Santo Agostinho, in A Cidade de Deus


Num tempo em que tanto se fala de Direito em Portugal, pretendo aqui iniciar uma inconsequente série de comentários, citações e afins, sobre a Justiça (e que poderá passar eventualmente também pelo Direito). Como disse, se à primeira vista parece que todos os dias não falamos de outra coisa que não de Justiça, o que é certo que não falamos (e isto, pelo menos desde que os positivistas legalistas deram cabo do Direito natural e do debate sobre o que é a Justiça e o que é a Injustiça). O objectivo final seria conseguir escrever um pequeno, impreciso, e provavelmente aborrecido, ensaio sobre a natureza antagónica (ou não) de dois personagens que muito me seduziram, um deles que se crê ter existido (apesar de nunca ter ele próprio deixado qualquer registo escrito), outro uma criação trágico-mitológica. São eles o Sócrates da Apologia e do Críton de Platão e a Antígona, de Sófocles.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Ainda sobre cinema


Esta é, sem dúvida, uma boa semana para os cinéfilos. Senão vejamos (tudo na RTP2 a partir da meia-noite e meia):


Dia 23 (ontem): The Enforcerer / Harry, O Implacável, de James Fargo (1976). Um filme com Clint Eastwood dispensa qualquer apresentação. Nesta obra encarna o personagem do polícia rude e pouco simpático (“Dirty Harry”), mas sempre íntegro, que cai que nem uma luva ao próprio Clint Eastwood.


Dia 24: Lolita, de Stanley Kubrick (1962). Simplesmente a melhor adaptação cinematográfica da obra homónima de Nabokov.


Dia 25: Blow Up, de Michelangelo Antonioni (1966). Nunca vi esta obra de Antonioni. Aliás, iniciei-me na sua cinematografia há muito pouco tempo (com o L’eclisse). Mas o pouco que já vi agradou-me sobremaneira, pelo que me está proibido perder um dos seus filmes mais conhecidos.


Dia 26: A Clockwork Orange / Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971). Um dos mais carismáticos filmes de Kubrick, e ainda hoje causa de interessantes debates. Aliás, parece-me que cada vez mais faz sentido ver este filme nos dias de hoje.


Dia 27: THX 1138, de George Lucas (1971). O primeiro filme realizado pelo realizador da saga Star Wars. Parco em meios, George Lucas fez aqui um filme de ficção científica bem interessante (inspirado na magistral obra de George Orwell 1984) . Imperdível para qualquer amante do género.


Depois há ainda os dois filmes habituais de Sábado (dia 28): Sweet November, de Pat O’Conner (2001), francamente dispensável, e o clássico Doctor Zhivago, de David Lean (1965), que há quem diga que até supera a obra literária que lhe serve de base. Claramente a destoar da restante semana, estes dois últimos filmes certamente foram seleccionados por um editor de programas com propensão para o romantismo caseiro de sábado à noite.


Bem, e aproveitem enquanto dura, já que para a semana acaba este ciclo de cinema na rtp2, com a estreia do 5 para a meia-noite, seja lá o que isso for.


segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Underground (Era uma vez um país)


Conheço muito pouco da música e da cinematografia de Emir Kusturica. Talvez por causa disso, obtive uma agradável surpresa (de certa forma já esperada) quando num destes chuvosos dias de Novembro pude ver um dos seus filmes mais aclamados: Underground, de 1995.

O filme, todo ele, é música para os ouvidos (literalmente). O argumento (e que belo argumento) é montado de uma forma única por Kusturica: umas doses de burlesco, outras de um quase grotesco, personagens mirabolantes e excêntricas, tudo misturado com um humor divertido mas também inteligente.
Durante quase 3 horas de filme vemos o desenrolar da dura e cruel história da antiga Jugoslávia entre a Segunda Guerra Mundial e o início do seu desmembramento em 1992. Entre a invasão Nazi (a célebre destruição do zoo de Belgrado está filmada de uma forma chocadamente realista), o bombardeamento dos Aliados, o regime comunista de Tito, e os conflitos étnico-nacionalistas da última guerra na ex-Jugoslávia, são 50 anos da história de um país miseravelmente marcado pela guerra. E sendo a guerra um assunto sério, nada melhor do que um filme divertido para nos mostrar como é ridícula e estúpida a natureza dos homens.

Em poucas palavras, Underground é divertido mas rigoroso, um filme que desperta todo o tipo de emoções, e no qual se denota uma certa influência do cinema de Fellini (o que para mim, felliniano confesso, é óptimo). É, pois, um filme obrigatório.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Funes, o gramático


Hoje ao almoço, conversando sobre um certeiro postal do Funes de há uns dias (que mereceu um repto de uma freira ofendida e ainda uma réplica sublime por parte do Funes), lembrei-me de uma história contada por um professor que tive na faculdade de Direito (local também conhecido como santuário da ignorância e do beatismo intelectual).

A história, contava ele, passou-se numa oral de Processo Penal. Durante a oral (que estava a correr tremendamente mal), a examinanda, resolvendo um qualquer caso prático, disse ao júri qualquer coisa como isto: “no caso de ser apanhado em flagrante delito na posse de vinte e uma gramas de heroína...”. Aqui, o professor que presidia ao júri interrompeu-a imediatamente e, já bastante impacientado, disse-lhe que em Portugal a palavra grama é um substantivo masculino. De seguida, a aluna, prosseguindo a sua oral, repetiu a frase que deixara inacabada: “no caso de ser apanhado em flagrante delito na posse de vinte e um gramos...”. Claro que, reza a história, instantaneamente o professor a interrompeu e lhe comunicou que a oral dela terminava por ali.


Bem, gramos à parte, aproveito esta história e dou os parabéns ao caro Funes (que faz hoje anos), pseudónimo de um advogado que isto dos blogues me deu afortunadamente a conhecer.


E agora vou ali jogar no Euromilhões. Eu até nem sou muito de jogatanas destas, mas é que há bocado levei com cocó de pombo mesmo em cima do ombro, e dizem (dirão mesmo?) que isto é predição de sorte. Claro que, doutro ponto de vista, levar com cocó de pombo no ombro até nem será azar mas sim sorte. Azar seria levar com ele mesmo em cima da cabeça (aí assim, um facto suficientemente azarado para sustentar a predição). Porém, e à cautela, jogarei na mesma.


quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Ainda sobre a TV e a paranóia da gripe A

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Incompreensões televisivas


Ontem, por um acaso qualquer, pus-me a ver o programa “Jogo Duplo”, que passa na RTP1 logo após o Telejornal.

E não fosse o apresentador até diria que o programa tinha tudo para ser um concurso televisivo muito interessante. De facto, num jogo onde a mentira, a astúcia e a cultura geral são os meios para se alcançar a vitória, nada haveria, a princípio, que me levasse a mudar rapidamente de ocupação (e, na verdade, da TV passei para a arrumação da minha biblioteca).
Mas sucede que o apresentador – de seu nome Carlos Malato – tem a habilidade de transformar aquilo numa espécie de concurso pantomineiro e azeiteiro, no qual candidatos em regra geral estúpidos se tornam além disso irritantes.

A sério que não compreendo como é que é possível que um gajo como o Carlos Malato tenha sucesso na Televisão, e, aliás, lhe paguem para apresentar um concurso no chamado horário nobre do canal público. Isto, num qualquer outro país ocidental, seria o fim antes do início do programa televisivo.

Mas ainda percebo menos como é que nenhuma alma caridosa deste país ainda não tenha requerido a um tribunal que proíba o João Baião de frequentar qualquer local ou instalações que disponham de uma câmara de televisão.

Mas nem tudo é mau nos canais públicos de televisão. Ontem também reparei que no canal 2 repuseram o ciclo "Cinco Noites, Cinco Filmes". Portanto meus amigos, a partir de agora as minhas horas de sono durante a semana serão substancialmente reduzidas.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Esquerda desonesta


A honestidade não é, como se sabe e todos os dias se pode constatar, uma virtude que se cultive na política portuguesa, principalmente naqueles partidos políticos pertencentes ao chamado arco da esquerda.


Por exemplo, o PS diz-se um partido de esquerda, mas não passa de um partido meramente oportunista, ou seja, é de esquerda ou de direita (embora quando vista esta capa o faça de forma camuflada) conforme a conveniência do momento.

Por outro lado, e para cativar votos e simpatizantes, o PS usa o epíteto “Esquerda Moderna” e o Bloco de Esquerda usa o epíteto “Esquerda de Confiança” (epítetos certamente cogitados por altas sapiências do marketing). Ora, não é preciso ser muito sabedor para se saber que a Esquerda nem é nem nunca será moderna, e muito menos será de confiança. Afinal uma Esquerda moderna é o quê? Uma Esquerda pejada de computadores Magalhães? E como é possível chamar ao Bloco uma Esquerda de confiança? A um partido que nem os próprios novos militantes sabem muito bem o que aquilo é.


O PCP, no meio disto tudo, é o nosso partido de esquerda mais honesto: sem vergonha do seu passado, não usa epítetos fraudulentos, e defende abertamente as ditaduras comunistas ainda existentes no mundo, convivendo de forma pública com os seus sanguinários líderes e seguidores.


quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

A corrida aos canudos


Assiste-se hoje, em Portugal, àquilo a que eu chamaria a total banalização dos canudos.

Este processo de vulgarização dos graus académicos já começou há vários anos, mas atingiu nos últimos tempos, em muito devido à aplicação recente do processo de Bolonha no ensino superior português, os píncaros da absoluta descredibilidade.

Além disso, ou aliás, antes disso, assiste-se também a um processo semelhante em relação ao ensino básico e secundário (penso mesmo que já se estendeu o ensino obrigatório ao ensino secundário).

Condizente com os objectivos e forma de governação do actual executivo socialista, a actual massificação e facilitação na criação, manutenção, e atribuição de títulos académicos (licenciaturas, mestrados e doutoramentos) visa quase unicamente atingir critérios estatísticos. De modo a vermos, daqui por uns anos, o nosso país nos primeiros lugares nos índices internacionais de desenvolvimento académico-científico, iremos levar com milhões de licenciados e mestres, e milhentos de doutores em breve prazo.

Os cidadãos, quase que obrigados (sob pena de se verem irreversivelmente ultrapassados ou até perderem o emprego), têm prosseguido uma ridícula corrida aos canudos, pouco preocupando-se com a qualidade dos mesmos, tão somente preocupados com a obtenção (da forma mais rápida e menos dispendiosa possível) de tão famigerados títulos.

Tudo isto faz pouco sentido. É evidente que o país necessita de gente académica e cientificamente competente e capaz. Mas já não vejo como evidente o pressuposto de que toda a gente deva ser licenciada, mestre ou doutor. Aliás, parece-me que tal pressuposto levará, no seu extremo, a consequências caóticas no sistema. Quando toda a gente for licenciada quererá ser mestre (aliás, agora com o processo de Bolonha, para se acabar um curso tem de se fazer um mestrado). Quando toda a gente for mestre quererá ser doutor. E quando toda a gente for doutor quererá ser o quê? Criar-se-á um novo título para essa gente?

E como é que o mercado absorverá tantos doutores?

E isto para não falar na consequente e abrupta diminuição da qualidade dos trabalhos e dissertações, muitos deles abrangendo temas e objectos francamente estapafúrdios e irrelevantes, e normalmente destituídos de qualidade científica e ainda menos estilística.


quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Da Série "La Femme Fatale"



Jacqueline Bisset
(Julie), em La Nuit Américaine (1973), de François Truffaut

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Minutas, alheiras, e Dostoiévsky, ou diário de um gajo que não tem que fazer


Acabei mesmo agora de minutar um contrato de arrendamento. Minutar, gosto muito do verbo minutar – eu minuto, tu minutas, ele minuta... Também aprecio o verbo orar – eu oro, tu oras, ela ora... Mas não tanto como o verbo secundar, esse sim, um verbo muito interessante. Bem, mas estava eu a dizer que acabei de minutar, e como não tenho mais nada para minutar (por estes tempos não tenho muito que fazer), e são pouco mais que 18 horas e 30 minutos, estão reunidas as condições para eu ir beber uma cerveja ali à praça. Porém, sucede que ficou frio. E como Vossas Senhorias bem sabem ele não há, em Portugal, cerveja de qualidade para se beber em tempos mais fresquinhos. Com uma temperatura destas, beber um fino Sagres sabe-me tão bem como se me passassem uma lixa pela garganta abaixo.

Posto isto, não me resta então outra opção que não vir aqui e escrever isto que V. Senhorias estão agora a ler, perdendo o Vosso precioso tempo com estas minhas minudências quotidianas eminentemente idiotas. De seguida seguirei para o Pingo Doce onde espero encontrar e adquirir por baixo custo uma alheira de qualidade, seguindo directo para casa, local onde me aguarda um amigo que já não vejo há uns largos anos (pelo menos desde que deixei a faculdade). Estou a falar do caro Fiódor Dostoiévski, certa e francamente conhecido dos leitores deste lugar.

Sempre pensei deixar Os Irmãos Karamázov para quando fosse mais velho, mas a saudade falou mais alto, e para a velhice terá de se arranjar outra coisa. Aliás, quem sabe se lá chegarei. Por esse motivo não há que correr riscos e perder a possibilidade de se ler semelhante obra. E também, os clássicos são para ser lidos enquanto um gajo é novo, o que a ser verdade, e no meu caso, será para o resto da vida (a não ser que altere o meu apelido).

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Entretanto,


e enquanto não decido o destino a dar a este lugar do esquecimento, estive ontem “à conversa com” o Francisco José Viegas, a propósito da sua última obra, O Mar em Casablanca. Aproveitando o momento, deu para conhecer melhor a fascinante história de vida daquele que é talvez o mais interessante cronista em Portugal desde As Farpas. Estou a falar, pois claro, de António Sousa Homem, um velho minhoto conservador e reaccionário, e advogado reformado residente em Moledo. Um episódio que achei delicioso foi o do Dr. Homem, que já conta com uns bonitos 86 anos, ter sido convidado por carta pelo CDS-PP local para encabeçar a lista deste partido à edilidade daquela terra. Se assim o aceitasse, seria caso para acrescentar à figura do eleitor fantasma a figura do candidato fantasma.


Apesar de eu próprio desconhecer a obra em prosa de FJV (o mesmo não digo das suas crónicas cervejeiras, gastronómicas e até futebolísticas, e sem esquecer A Origem das Espécies), o certo é que não tenho dúvidas que FJV é um escritor de grande talento. E conhecendo-se a minha pancada por excluir de uma leitura salutar os autores vivos (o J.D. Salinger não conta), o FJV arrisca-se a ser o escritor (e logo um português) a quebrar essa minha idiota pancada literária (claro que o facto da minha biblioteca paternal conter quase todas as suas obras também ajuda). E isto mesmo contando com o facto de eu não apreciar por aí além o romance policial, pelo menos por enquanto.


De resto, hoje é sexta-feira, está de chuva, uma nova legislatura começa, o Paulo Bento demitiu-se, estive a aturar um vendedor da ZON por 15 minutos aqui no escritório, e tudo harmoniosamente se conjuga para se formar um dos dias mais aborrecidos do ano.


quarta-feira, 4 de Novembro de 2009


Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo.


Dom Casmurro, Machado de Assis


Bem, tenho de ver se decido o que fazer a este blogue, uma vez que por ora atravesso um outro rio.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Humor Britânico


Esta é a entrada do dia 27 de Outubro de 1939 no diário de George Orwell (graciosamente disponibilizado aqui em forma de uma espécie de blogue) :

I think there must have been a slight frost again last night. Today about midday heavy rumbling sound which may have been either thunder or gunfire, & soon afterwards heavy sleety rain. More showers in the afternoon. Ground is very soggy again. Could not do much out of doors owing to the rain. Dug a little patch for the shallots.

6 eggs.


E estes são os quatro comentários a essa entrada/post, por ordem cronológica:
  1. The Ridger Says:
    October 27, 2009 at 9:19 am

    “Today about midday heavy rumbling sound which may have been either thunder or gunfire, & soon afterwards heavy sleety rain.”

    Are external events forcing their way in despite all he does to keep them out? Three years ago would autumn thunder have sounded like guns?

  2. Stephen Downes Says:
    October 27, 2009 at 11:11 am

    Could the bombing have started?

  3. david walsh Says:
    October 27, 2009 at 11:39 am

    According to a web diary of dates in history in the UK, the only event of note on this day in 1939 was the birth of John Cleese

  4. jape Says:
    October 27, 2009 at 1:20 pm

    “… the only event of note on this day in 1939 was the birth of John Cleese”

    which would explain the rumbling sound. (negritos meus)



terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Uma descoberta extraordinária


Ainda agora fiz uma descoberta extraordinária. E tudo devido a um belo filme francês de Louis Malle que acabei há pouco de ver (e eu que nem gosto por aí além do cinema francês).

A extraordinária descoberta foi Charlie Parker (e eu que nem gosto por aí além de jazz)*.



Nota: cumpre informar a clientela deste ermitério que o meu conhecimento de jazz não ia além, até hoje, de Miles Davis e Coltrane.


segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

O Santo Lenho


Apesar de não ser o meu escritor português de eleição, o que é certo é que a cada passo volto ao Eça. Deve ser porque sinto por ele uma certa afinidade geográfica (afinal de contas, a sua ascendência materna era aqui de Viana, se não estou em erro).


Há uns dias pus-me a ler A Relíquia (história de um de jovem pândego nascido em Viana, criado em Lisboa com uma tia beata, e que parte para uma viagem carnal pelos destinos sagrados do Médio Oriente, na mira de herdar a fortuna da tia mediante uma beatice profunda). Ainda não o acabei, mas a sua leitura tem sido de um aborrecimento atroz. Não gosto de deixar romances a meio, mas quanto a este não me faltou amiúde a vontade. Então o relato da visão que Teodorico teve da paixão de Cristo é uma coisa pacientemente medonha (relato este que terá seguramente mais de cem páginas). Enfim, a ver se o acabo até final da semana.


Mas isto tudo porque vinha aqui falar de relíquias, assunto de grande interesse intelectual pois claro.


Ora, sucedeu que num destes soalheiros sábados de Outubro tive de levar uma certa pessoa ao aeroporto da Portela para apanhar um voo ainda cedo. E já que estava em Lisboa, aproveitei o resto da manhã e fiz aquilo que qualquer pessoa faria habitualmente em Lisboa: visitar o mosteiro de S. Vicente de Fora, que, além de ser um dos monumentos mais belos da nação e panteão real, deixou-me boas memórias numa visita que fiz ainda na faculdade.


A visita, evidentemente, foi muito prazenteira (apenas fiquei triste por estar fechado o acesso à parte superior da edificação, pois alcança-se uma das mais belas vistas sobre Lisboa). Porém, durante a visita foquei a minha atenção num objecto particularmente interessante (presente na notável exposição sacra que aquando da minha primeira visita ainda não existia): um bonito relicário contendo um pedaço do santo lenho, i.e., um pequeno pau supostamente retirado da cruz onde Jesus Cristo foi crucificado.


Enquanto apreciava o objecto, explicava à minha namorada que se se juntassem todos os pedaços de santos lenhos espalhados pelo mundo, daria, com grande certeza, para fazer dezenas de cruzes. E que, por esse motivo, a probabilidade de aquele pauzinho ali presente ter feito parte da verdadeira cruz de Cristo era imensamente diminuta. De facto, o tráfico medieval de relíquias sagradas é sobejamente conhecido, fazendo com que a maior parte das relíquias existentes nas igrejas por esse mundo fora sejam falsas.


Claro que, depois disso, esqueci por completo o santo lenho, só voltando a pensar em relíquias quando em leitura nocturna d’A Relíquia do Eça. Sucedeu porém que, ontem, folheando eu uma edição de história militar no tempo da reconquista que eu tinha para aqui (é verdade, na minha juventude, um pouco antes de pensar que iria ser negociante de carros antigos, pensei em ser historiador), confrontei-me, de novo, e por mero acaso, com o santo lenho.


Como V. Senhorias bem sabem, ontem – dia 25 de Outubro – comemorou-se mais um ano sobre a conquista de Lisboa aos Mouros (tema este que, a propósito, serve de base ao único livro de Saramago que li integralmente e gostei: História do cerco de Lisboa). E, encontrando-me eu a ler uma passagem de um relato de um cruzado que participou no famoso cerco, deparo-me com isto:


“...estando já a postos os aprestos da defesa, chama-se o arcebispo para dar a bênção ao empreendimento. Acabada a oração e feita a aspersão de água benta, determinado sacerdote, com a relíquia do Santo Lenho do Senhor nas mãos, pronunciou o seguinte sermão: «Irmãos! O desafia está a postos. A empresa está no auge. O adversário urge. Ninguém se assuste. (...) Eis, meus irmãos, eis o Lenho da Cruz do Senhor! (...) Com a ajuda de Deus, ficarei convosco nesta máquina de guerra (possivelmente uma torre de assalto), a guardar este sacrossanto Lenho e em vossa companhia permanecerei enquanto a vida me acompanhar”. (negrito e parênteses meus)


Deste modo, só pude concluir, porque assim é verosímil, que a relíquia do Santo Lenho existente em S. Vicente de Fora, se é falsa, pelo menos é exactamente a mesma que aquele cruzado falava e que acompanhou as hostes cristãs aquando da conquista de Lisboa há exactamente 862 anos. É que, como se sabe, a fundação do mosteiro data precisamente da conquista de Lisboa, tratando-se de um local indissociavelmente ligado a tal afamado feito guerreiro. Aliás, por baixo da sacristia (e que obra de arte impressionante!) do mosteiro encontram-se os túmulos de guerreiros cruzados falecidos durante o cerco, muitos deles vindos do Norte da Europa.


Por vezes, na nossa vida, dão-se estes fortuitos acasos a que eu chamaria coincidências histórico-literatas-idiotas.


Mas só agora reparo que isto é muito texto para um assunto tão enfadonho. Afinal não padecerei eu do mesmo problema do livro do Eça a que aludi no início? Aliás, será que houve alguma alma deste mundo que leu isto até ao fim?


sábado, 24 de Outubro de 2009

Da série: quando for grande quero ser guitarrista #8


*A visualização integral do vídeo é altamente aconselhável, não só devido à temática abrangida (e ultimamente aqui tão recorrente), mas também pela simbiose perfeita entre uma guitarra eléctrica e uma orquestra sinfónica.

(# 1; # 2; # 3; #4; #5; #6; #7)

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Uma questão eterna


Ainda há bocado, dois homens de idade considerável discutiam Deus na televisão e em directo.


Um sacerdote, um Nobel da literatura, um toque de telemóvel em directo, e Mário Crespo: ora aí estão reunidos todos elementos para um debate de elevada fastiosidade.

É, de facto, um assunto que evito discutir ou ouvir quem o discute. Não só devido à sua habitual esterilidade, mas também por que é um tema que facilmente segue caminhos pouco recomendáveis.


No entanto, e apesar de eu próprio achar que se dá demasiada importância a Deus (mas isto sou eu que o digo que não passo de um incréu esclarecido), não deixo de afirmar que, conhecendo a história da humanidade como levemente a conheço, sempre será preferível crer-se numa entidade abstracta como Deus do que crer-se num homem.


É que para além de incréu, também sou um grande céptico em relação ao Homem.


E pronto, por hoje chega de me chamar nomes feios.


quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Uma pergunta idiota


Que é feito da promissora papa-taças do triatlo Vanessa Fernandes?

Há cerca de um ano não havia telejornal que não noticiasse uma vitória mundial da jovem atleta todas as semanas.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Até já?

O caro Jorge C. do entre deus e o diabo resolveu deixar a bloga, e a bloga fica, assim, mais pobre. Esperemos que o Jorge C. tome juízo (e se ajudar, uns bons canecos de boa cerveja) e reconsidere, para bem de nós todos. É que para além do bom gosto musical com que frequentemente nos presenteia, o Jorge C. é um pensador livre, coisa que, nos dias de hoje, é uma raridade.

Adenda: Afinal o caro Jorge C. não deixou a bloga, apenas se mudou para um outro lugar. O caminho para esse lugar de sonhos já consta da barra da direita. É só segui-lo .




Panic, The Smiths

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

In Dubio Pro Reo



O grande Henry Fonda em 12 Homens em Fúria (12 Angry Men, 1957), de Sidney Lumet.


Um filme obrigatório para qualquer apreciador de bom cinema, mas em especial para todos aqueles que, como este escriba, se dedicam às coisas do Direito Penal.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Um obra sagrada mas pouco lida


Como sabem, nada há, neste momento, mais in (i.e. na moda) do que dizer mal de Saramago, tanto da pessoa, como da sua última obra, Caim.


Provavelmente aqueles que assim procedem ainda nem sequer leram a referida obra. Eu , pelo menos, não a lerei com certeza.


O homem anda a promover comercialmente o produto do seu trabalho e o seu sustento. E depois? Qual é o problema? Desde quando é que na publicidade há moral e ética? Aliás, estamos prestes a entrar naquela altura do ano em que a publicidade se arrasta, ao som de irritantes musiquitas natalícias, por um lamaçal de desrespeito pelos valores mais básicos de uma sociedade que se quer honesta e proba.


Anda meio mundo a enganar outro meio mundo, e anda meio mundo a dizer mal de outro meio mundo, e nós ficamos chateados porque Saramago promove um seu livro que diz mal da Bíblia através do maldizer da Bíblia? Mas que raio! Queriam o quê?


Mas isto é assunto que não me preocupa por aí além. Fico mais admirado com o facto de eu não conhecer pessoalmente nenhum católico (e eu conheço muitos, não fosse eu natural de uma região eminentemente católica) que tenha lido, ainda que parcialmente, a Bíblia.


Há pouca coisa na actual Santa Igreja Católica Apostólica Romana que eu critico. Aliás, acho-a uma organização essencial à nossa sociedade, admiro-lhe a grandeza artística, a coerência, e penso mesmo tratar-se de uma instituição histórica de grande relevo. Talvez peque pela sua modernidade (não lhe perdoo o abandono do Latim e de alguns ritos, muito interessantes do ponto de vista estético, durante as homilias).


Mas se há coisa que não percebo é uma organização religiosa ter crentes/associados que nunca passaram os olhos pelo livro que crêem mais sagrado, o livro que deveria ser o farol das suas vidas, o livro inquestionável representativo da palavra do seu Deus, o livro, enfim, que fundamenta e sustenta a própria existência dessa organização religiosa.


Isto, apesar do esforço, não compreendo meus senhores. Bem sei que existem pessoas encarregues de propalar os escritos da Bíblia aos fieis, de acordo com a hermenêutica fixada nos concílios. Também sei que foram séculos e séculos de analfabetismo neste nosso país. Mas não estarão hoje os crentes portugueses preparados intelectualmente para beberem directamente na fonte e sem interferências a mensagem sagrada contida na Bíblia? Não deverão ser encorajados a isso mesmo? Qual é o medo? De perderem fieis? Mas isso não é o que acontece todos os dias actualmente?


sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Uma outra Casa da Música

Algures pela Ásia.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Au revoir MEO


Muito honestamente (odeio ouvir isto), esta minha ausência nos últimos dias deve-se apenas à incúria, ao mau profissionalismo e à manifesta e gritante falta de resposta em tempo útil da MEO.

Desde segunda-feira de manhã que em minha casa não temos qualquer ligação (seja à net, seja ao telefone e seja mesmo de TV). Logo na segunda-feira, comunicamos a avaria/interrupção total do serviço à PT. Comunicaram-nos que dentro de seis horas um técnico iria deslocar-se para proceder ao restabelecimento da linha. Claro que nenhum técnico se deslocou, nem naquelas seis horas, nem nas 72 horas seguintes. Durante quase três dias foi esta a conversação via telemóvel (como o telefone não dava, toca a gastar rios de dinheiro em saldo) com a MEO/PT: - Já registámos a vossa avaria, e dentro das próximas horas irá ser contactado por um técnico de modo a que o mesmo se desloque à vossa casa.

Hoje, já depois de ao final da tarde de ontem termos comunicado à PT a resolução do contrato, um técnico deslocou-se à nossa residência e, em apenas cinco minutos, procedeu ao restabelecimento do fornecimento do serviço.

Entretanto, procuramos um novo fornecedor. Alguma sugestão?


*

Como estive sem net estes dias todos, pude despachar algumas coisas que já andava há muito para fazer. Assim, vi integralmente o Vale Abraão, do Manoel de Oliveira, que já aqui estava para ser visto há demasiado tempo. Pude também papar de rajada quatro volumes de poemas de um poeta local pelo qual nutro especial interesse.

Assim, é caso para dizer que por vezes há males que até vêm por bem.


sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Eu queria colocar aqui Nobel no plural mas não sei como se escreve


Parece que foi atribuído a uma romena germânica o Nobel da literatura deste ano (ler aqui).

Como me tem sucedido com os dos últimos anos, desconheço por completo a autora e a sua obra. E nem tampouco pretendo conhecer.

É que, como já devem ter reparado, no que toca a literatura preocupa-me pouco os vivos. Apenas os mortos merecem a minha consideração literária. Os mortos e o Salinger. Mas este não se sabe muito se está vivo ou morto, já que ninguém o vê há mais de trinta anos.


*


E na senda da ridicularização de um prémio que de início pretendia ser sério, foi hoje anunciada a atribuição do da paz ao Obama (ler aqui).

Nunca percebi muito bem este Nobel. A paz não é, em si, um valor absoluto (como a justiça e a liberdade). A paz pode, por exemplo, ser obtida através do massacre, da mutilação da liberdade e através de injustiças horríveis. Aliás, muitas das vezes a própria feitura de guerra é necessária para se obter a paz. Pelo que, ao invés de se premiar um valor um pouco difuso, melhor se compreenderia um Nobel da Justiça ou um Nobel da Liberdade.


quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

New York, New York

Times Square, 1935

São mais de 200 fotografias antigas de Nova Iorque, incluindo, entre outras esplêndidas, uma de Woody Allen acompanhando Cleopatra Jones em 1971.

Apreciar regaladamente e com tempo, e se possível acompanhado de um bom Bourbon, aqui.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Flores do oriente


Claude Jade, como Christine Darbon Doinel
em Domicile Conjugal (1970), de François Truffaut


É curioso ver que é através das flores (tão caras a Doinel) que Christine descobre que está a ser traída pelo jovem marido.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Um revolucionário conservador


A vida é feita de contrastes e desequilíbrios ligados por breves segmentos de rectas. Para um homem ser revolucionário numas coisas tem simultaneamente que ser conservador noutras. Assim me sucedia a mim.



In Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro,
Bertrand Ed., Lisboa 2008


sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

2 de Outubro


Também há exactamente um ano fiz 25 anos. Uma bela idade sim senhora.

E enquanto comia um bife embebido em molho de guinness num pub de Dublin (cidade que passei a amar a partir do momento em que pus os pés no temple bar), pensava para os meus botões algo parecido com o seguinte: aos vinte e cinco continuo o mesmo desgraçado que era aos vinte, com a diferença de que já bebia whisky como um homem, tinha tirado um curso de Direito e li o Ulisses com gosto. De resto, mantinham-se sempre as mesmas incertezas e as mesmas dúvidas.

Hoje as dúvidas continuam. Sei apenas que neste segundo estou vivo (e não tenho culpa nenhuma disso), mas não sei se no próximo estarei. Sei também que ainda somos menos do que aquilo que pensamos ser. E, enquanto isso, ando à procuro de saber quem sou mas não faço ideia daquilo que vou ser. Procuro ser feliz e tirar o máximo prazer da vida, e isso chateando o menos possível o menor número de pessoas.

Sendo assim, e como estes tempos não estão para metafísicas, tirarei o resto da tarde de hoje para mim, i.e., quero ver se leio o Críton do Platão e se vou ao barbeiro cortar este cabelo.

Para V. Senhorias, deixo aqui uma bela música de David Gilmour.



Where We Start - David Gilmour

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

O fim da capitalismo e do federalismo debatido na Irlanda


Há exactamente um ano era esta a questão nas ruas de Dublin. Felizmente para todos nós, o capitalismo ainda não está morto. Mas, amanhã, a questão será outra.


Pela segunda vez em menos de dois anos, a ratificação do Tratado de Lisboa será objecto de um referendo na Irlanda. Os irlandeses, esses asnos que não perceberam à primeira que o Tratado de Lisboa era porreiro, terão o poder de dar o golpe de morte a um tratado que nasceu torto e cresceu ainda pior. Aliás, o facto de estar agora a ser novamente referendado, face a um primeiro resultado negativo, já diz muito da gente que pretende ver este tratado em vigor (se eu fosse irlandês e tivesse votado sim no primeiro referendo, só por causa desta descarada falta de respeito votaria agora não). Mas esta ausência de descaramento parece ser uma característica comum e francamente cultivada pelos políticos europeus dos nossos dias.


É óbvio que a UE necessita de uma reformulação político-institucional. Porém, qualquer solução que passe pelo desrespeito dos princípios que fundamentam a própria existência da UE deverá ser excluída. E um tratado travestido de Constituição atentatório do princípio da igualdade dos estados e da solidariedade entre nações padece, acrescentando-se o encapotado ensejo federalista (totalmente contrário ao espírito europeu), de manifesto equívoco.


Esperemos, então, que os irlandeses tomem uma boa decisão para a Europa.


E já que pelas nossas bandas pouco se sabe destas coisas, deixo aqui o link do Irish Times (pasquim quase tão antigo como A Aurora do Lima) que acompanha de perto o referendo.


terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Da grandeza de uma nação medida na medida dos seus copos de cerveja

É nas pequenas coisas que vemos a pequenez de um povo. Quanto ao nosso, e pelo menos desde o século XVII, parece ter-se abatido sobre ele uma névoa eterna de pequenez.


Esta pequenez de que falo, de tão socialmente transversal e uniforme, já nem sequer é notada ou detectada. Aliás, parece ter-se moldado de tal forma aos espíritos que ora a tomamos como indissociável do carácter da nossa nação. Há muito que deixamos de gostar de grandezas. E os poucos que ousam ultrapassar a névoa são considerados loucos, pretensiosos ou simplesmente estúpidos. É natural, assim, que muita da nossa gente de valor se veja obrigada a emigrar para destinos mais favoráveis.


Satisfazemo-nos com muito pouco, e somos tão pouco exigentes com nós próprios, com os outros e com tudo o que nos rodeia que, só assim, se explica o estado actual da nossa política e da nossa cultura.


Também só por causa disto – o culto intenso da pequenez – é que se compreende que um qualquer fino pedido num qualquer tasco português contenha apenas e só 20 cl de cerveja. Quantidade esta de cerveja que desce rapidamente pela goela em não mais que dois tragos. Compare-se a míngua da nossa cerveja a uma pint de Guinness num pub irlandês ou uma caneca de uma weissbier num bar de Munique.


A míngua da nossa cerveja, por regra de pouca qualidade e muito mal tirada, ainda se percebe menos perante a nossa temperatura média anual, muito acima da alemã ou da irlandesa.


Enfim, é também no tamanho dos finos que se vê a grandeza de uma nação.


sábado, 26 de Setembro de 2009

Eleições

An Election Entertainment, William Hogarth, 1754


Amanhã teremos eleições legislativas. E tal como com há quatro anos e meio, o PS de Sócrates irá ganhar as eleições (resta saber por quanto). Infelizmente, a democracia tem destas coisas.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Vinho verde, Lolita, Metal, Fellini e outras coisas interessantes


Levemente ébrio, e após uma mariscada – já vos disse que o arroz de marisco da minha mãe é divinal? -, refeição que me obrigou, a mim e ao meu pai, a degustar duas garrafas de vinho verde da mui nobre mas tão desvalorizada casta loureiro, passei a debruçar-me sobre certos aspectos de uma freguesia vizinha. Fiquei a saber, por exemplo, que nessa freguesia existe um supermercado denominado “Supermercado Lolita”. É também nessa freguesia semi-rural do Alto Minho que se realiza o mais importante festival de metal em Portugal. Por outras palavras, trata-se de uma freguesia com uma actividade cultural mais intensa do que, por exemplo, o ministério da cultura.


Mas não foi por causa da Lolita de Nabokov ou mesmo de Kubrick e muito menos de metal que aqui vim. Foi porque após aquela pesquisa, pus-me aqui a ver, pela primeira vez de forma integral, O Casanova de Federico Fellini. É talvez o filme que menos apreciei dos que vi de Fellini. O seu exotismo barroco (e que eu tanto aprecio nas suas obras) apresenta-se neste filme de um forma tão excessiva, repetitiva e cansativa que à meia hora de filme já desejamos ardentemente a revolução francesa. Trata-se do universo felliniano, mas no seu extremo. O argumento, claro, é bom, tal como a música de Nino Rota, e a interpretação de Donald Sutherland, só por si, vale a visualização integral do filme. Mas é um filme que está longe da grandeza das obras-primas Amarcord, Roma, Os Inúteis ou O Conto do Vigário.


Ah, mas foi então que depois me deparei com este texto de Bénard da Costa (recentemente falecido) sobre o livro de sonhos de Fellini. Uma maravilha pois claro: sonhos, heranças, estórias, notários, matronas fellinianas e tudo o resto. É obrigatória a sua leitura para todos os fellinianos e, em geral, para gente com juízo.


E agora vou beber uma água das pedras que estou com sede.


quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Como diz o outro: na mouche

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

A bibiloteca esmiuçada*


Sou por natureza uma pessoa organizada, e por vocação desorganizada. Ou será antes o contrário. Não sei. Sei é que aplico a algumas coisas uma organização meticulosa e a outras uma desorganização total. Exemplos da primeira: a minha biblioteca e a minha colecção de moedas. Exemplos da segunda: a mesa do meu escritório e a colecção de selos.


A minha biblioteca é, aliás, uma das poucas coisas pelas quais tenho algum orgulho. A colecção de moedas está arrumada há mais de cinco anos e pretendo vendê-la entretanto.


Mas a biblioteca é um caso curioso. Por exemplo, também tenho, mesmo ao lado da biblioteca, uma pequena DVDteca(?), mas os DVD’s encontram-se distribuídos sem qualquer disposição aparente, e a única sequência existente é aquela à medida que eu os vou adquirindo. O mesmo se passa com os CD’s de música.


Quanto aos livros, a história é outra: estão, antes de mais, divididos por áreas: história, gastronomia e viagens, filosofia, arte, Direito, clássicos greco-latinos e ficção. Há ainda uma pequena secção para diversos. Excluindo o Direito, que ocupa toda uma estante, é a ficção que abrange a maior área útil da biblioteca. Nesta secção, organizo os livros pela nacionalidade dos seus autores. E uma das coisas que me dá mais prazer é comprar um livro e ir colocá-lo criteriosamente no local a que pertence na biblioteca. É uma organização perfeita, pelo menos para mim, e qualquer alteração provoca-me calafrios (fico sempre chateado quando o meu pai vem aqui recolocar um dos do Dostoiévski junto a um americano só porque lá faltava o Manhattan Transfer). Não sei onde aprendi ou vi esta disposição de livros por nacionalidades. Talvez seja a mais natural e intuitiva. Normalmente o que vejo nas livrarias e nas poucas bibliotecas é uma distribuição por áreas temáticas (nas livrarias chega a ser caótica: uma vez observei numa bem conhecida a Ilíada na secção de filosofia e a Odisseia na de poesia) e depois por ordem alfabética do autor.


Já agora, e eu sei que isto não tem interesse nenhum que não para a minha curiosidade, mas como raio organizam a biblioteca os blogueiros que por aqui vão pacientemente passando?



*desculpem-me, mas não me surgiu mais nada.