Tendencialmente – ah como é bom começar com um advérbio de modo e ainda por cima este – sou daqueles que defendem que se pode escrever (bem ou mal) de todas as maneiras possíveis e imagináveis sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo, naturalmente, sobre o Holocausto Nazi. A minha ideia de liberdade leva-me a incluir, como já várias vezes escrevi aqui e noutros lugares, o direito ao disparate e à tolice no escopo daquele direito fundamental. Nessa medida discordo em absoluto do pedido de suspensão do vídeo do PND pela Comissão Nacional de Eleições. Este vídeo – uma montagem de um dos coléricos discursos de Hitler sobreposto a imagens de Alberto João Jardim em pose discursal –, para além de ser um bom trabalho gráfico (tão raro nos partidos portugueses), é, obviamente, um exagero inqualificável e disparatado. Mas são os exageros e as hipérboles que, tantas vezes, levam à correcção de costumes e de atitudes. Por exemplo, quem não se lembra do Roma de Fellini e daquele apoteótico desfile de moda religiosa? Eu tenho a certeza que este filme, e esta espectacular cena em particular, produziu um efeito na ICAR de maior moderação nos paramentos religiosos e eucarísticos utilizados. Coisa que, penso eu, se pôde notar claramente no último quartel do século XX (é evidente que a corrente do Concílio Vaticano II também terá contribuído para tal facto). Bem, mas lá estou eu a perder-me em deambulações...
Escrever sobre o Holocausto, essa era a questão. Aliás, neste caso concreto discorrer sobre a dieta praticada numa das mais abjectas criações humanas: o campo de concentração Nazi de Auschwitz. Diz quem sabe (Steiner, por exemplo) que são poucos os que sabem ou souberam escrever verdadeiramente sobre o holocausto. Aparentemente só está incluída nesse restrito núcleo gente que acaba por suicidar-se. O assunto é delicado e paradoxal. E na verdade corre-se o risco de, com a multiplicação de escritos sobre o mesmo, se perder ou adulterar o cerne da questão, se é que, num assunto como este, há algum cerne.
A autora de A Dieta de Auschwitz, que não faço ideia quem seja e ainda menos se se suicidou ou tem pretensões a tal, achou por bem gastar o seu tempo, inteligência, e conhecimento, na feitura de um escrito sobre o regime alimentício (ou inexistência dele) praticado em Auschwitz e, presumo eu pelo título e pela sinopse no Wook, compara-lo à realidade das dietas dos nossos dias. Além disso, achou por bem publicar a obra numa editora chamada “Ariana”. Como disse, nada tenho contra. Mas, de facto, esta coincidência é uma coisa dificilmente igualável.
Nota: Este livro e esta capa foram-me dados a conhecer pel’A Livreira Anarquista, um tumblr (uma espécie de blogue, mas para gajas) a seguir de perto.

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